Brazil: Candomblé, the Nations, and the Terreiros
The history and structure of Candomblé in Brazil, why the nations matter, the great Bahian terreiros and the women who led them, the regional variants, Umbanda as a distinct formation, and the current situation under evangelical pressure.
O Candomblé é a religião afro-brasileira dos orixás, organizada em torno do terreiro, um complexo de templo liderado por uma sacerdotisa ou sacerdote, ao qual se ingressa por meio da iniciação e centrado no cultivo e na transmissão do axé, a força vital. Tomou forma institucional reconhecível em Salvador da Bahia na primeira metade do século XIX e espalhou-se pelo Brasil no século XX [S1][S2]. Não se trata de uma única tradição, mas de várias, distinguidas por nação, e a diferença entre elas é a primeira coisa a ser compreendida.
As nações e por que a distinção importa
A nação, em Candomblé, designa uma tradição ritual: sua língua litúrgica, seus toques de tambor, seu panteão, sua sequência iniciática e sua linhagem. Não designa a ancestralidade das pessoas que a praticam. Membros de qualquer nação podem ser de qualquer ascendência.
Ketu, também chamada de Nagô, é a nação de origem Yoruba, cujo nome provém da cidade Yoruba de Kétu, no que é hoje o lado beninense da fronteira. Sua língua litúrgica é de matriz Yoruba, seus espíritos são os orixás, e é a nação que domina a literatura acadêmica e a imagem internacional do Candomblé [S1].
Jeje deriva das tradições Fon e Ewe da costa do Daomé. Seus espíritos são os voduns, sua língua litúrgica é de matriz Fon e sua gramática ritual é própria. O nome provém de Adja, aplicado no Brasil a partir do início do século XVIII [S3].
Angola e Congo derivam de tradições da África Central falantes de línguas bantu. Seus espíritos são inquices ou nkisi, sua língua litúrgica baseia-se predominantemente no Kimbundu e no Kikongo, e muitas casas de Angola adotaram o panteão de orixás Yoruba e grande parte da sequência iniciática do Ketu juntamente com as suas próprias [S4].
Dois outros pontos tornam as nações mais do que uma taxonomia.
O primeiro é a cronologia. Luis Nicolau Parés argumenta que a prática do vodun trazida pelos Jeje a partir do início do século XVIII foi central para a formação do Candomblé, e que a suposição comum de que o Candomblé se originou no culto aos orixás Yoruba inverte a sequência correta [S3]. A presença Jeje na Bahia antecede o grande afluxo Yoruba em cerca de um século. O que se tornou a gramática iniciática padrão do Candomblé pode dever tanto ao ritual do vodun quanto ao ritual de òrìṣà, com o conteúdo Yoruba sobreposto a uma estrutura já existente.
O segundo é a política. Existe uma hierarquia na Bahia que posiciona o Ketu acima do Jeje e ambos acima de Angola, em prestígio, em atenção acadêmica e em reivindicações de pureza. O argumento de Matory é que essa hierarquia foi substancialmente construída no início do século XX, por meio do discurso de pureza Nagô trazido de Lagos e reforçado por estudiosos a partir de Nina Rodrigues, que tratavam a prática Nagô como a mais evoluída [S5]. Não se trata de uma medida neutra de quem preservou mais. Um leitor Yoruba deve ter cautela aqui: a tradição que mais lisonjeia as origens Yoruba é também aquela cuja primazia é historicamente mais suspeita.
Origens e a fundação baiana
A prática religiosa africana existia no Brasil desde o século XVI, mas o Candomblé como uma liturgia estruturada e organizada e uma comunidade de prática formou-se mais tarde [S2]. Aproximadamente entre 1775 e 1850, pessoas originárias da Bight of Benin dominaram os desembarques na Bahia, e suas cosmologias tornaram-se ascendentes entre os afro-baianos [S2]. Pessoas escravizadas eram classificadas em nações em grande parte pelo porto de embarque, e não por sua própria identidade étnica, razão pela qual Nagô no Brasil, como Lucumí em Cuba, é uma categoria comercial que mais tarde se tornou religiosa.
A casa fundadora é o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, conhecido como Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador. A tradição oral sustenta que foi fundado por três mulheres africanas da nação Nagô, associadas à igreja da Barroquinha e à irmandade leiga a ela vinculada, na primeira metade do século XIX, provavelmente por volta de 1830, embora os documentos sobreviventes mais antigos que comprovam sua existência datem do final do século XIX [S1][S6]. As fundadoras são nomeadas pela tradição como Iyá Nassô, Iyá Acalá e Iyá Adetá; a africana liberta Marcelina da Silva está documentada na liderança inicial da casa [S1][S2]. A maioria dos terreiros Nagô na Bahia traça descendência a partir dessa comunidade [S2].
Duas das três casas baianas mais proeminentes são suas ramificações.
O Terreiro do Gantois, Ilê Iyá Omi Axé Iyamassé, foi fundado em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazaré após uma disputa de liderança no Engenho Velho, tendo as edificações do terreiro sido erguidas em 1900 sob a liderança de Mãe Pulquéria [S7]. Sua líder mais conhecida, Mãe Menininha do Gantois, Maria Escolástica da Conceição Nazaré (1894 a 1986), liderou a casa a partir de 1922 e tornou-se uma figura nacionalmente reconhecida, celebrada em canção por Dorival Caymmi e Caetano Veloso e visitada por presidentes [S8].
O Ilê Axé Opô Afonjá foi fundado em 1910 por Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha (1869 a 1938), por um grupo que se separou da Casa Branca [S9]. Mãe Aninha também estabeleceu uma filial no Rio de Janeiro. Em 1937, ela instituiu os doze Obás de Xangô, postos honoríficos masculinos modelados na prática da corte de Ọ̀yọ́, a conselho de Martiniano Eliseu do Bonfim, o baiano que havia estudado em Lagos [S5][S9]. Este é o caso mais evidente na Bahia de uma instituição do século XX construída a partir de consulta direta à África e agora vivenciada como ancestral. Suas sucessoras incluíram Mãe Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, e mais tarde Mãe Stella de Oxóssi, Maria Stella de Azevedo Santos (1925 a 2018), que assumiu uma posição pública contra o sincretismo e, em 1983, assinou com outras ialorixás uma declaração rejeitando a identificação dos orixás com os santos católicos.
A Casa Branca foi tombada pelo IPHAN, o instituto do patrimônio nacional, em 1984, sendo o primeiro sítio religioso afro-brasileiro a receber essa proteção [S6].
Repressão e legalização
O Candomblé foi policiado durante a maior parte de sua história.
As batidas policiais em reuniões religiosas afro-brasileiras aumentaram nas décadas de 1820 e 1830, em um clima moldado pela Revolução Haitiana e, na Bahia, pela Revolta dos Malês de 1835. A partir de 1822, leis permitiram que a polícia fechasse batuques, cerimônias de tambores [S2]. O Código Penal republicano de 1890 proibiu o espiritismo, a magia e o uso de talismãs, o que deu à polícia um instrumento direto contra os terreiros, embora a Constituição de 1891 consagrasse a liberdade religiosa [S2]. Na prática, os terreiros funcionavam sob regimes de autorização policial até meados do século XX, e a exigência de registro na polícia na Bahia perdurou até 1976.
O Decreto-Lei 1202 de Getúlio Vargas, na década de 1930, reconheceu a legitimidade dos terreiros e permitiu seu funcionamento, e o Código Penal de 1940 ofereceu maior proteção [S2]. A tolerância legal e a efetiva ausência de perseguição estiveram separadas por décadas.
O que é Candomblé, estruturalmente
O axé é o conceito organizador: força vital, poder de realizar as coisas, presente em substâncias, palavras, sangue, folhas, pedras e pessoas, acumulado, transmitido e esgotado. O axé de um terreiro é sua herança e seu capital de trabalho. Seu assentamento físico fica enterrado no solo da casa. A iniciação transfere o axé; o ritual o mantém.
Os orixás são as divindades: Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Xangô, Oyá ou Iansã, Oxum, Yemanjá, Nanã, Obaluaiê ou Omolu, Oxumaré, Logunedé, Oxalá e outros, com Olorum como o ser supremo distante. Cada iniciado tem um orixá tutelar, o dono da sua cabeça, e pode ter um segundo, o juntó. Os nomes são reconhecidamente iorubás na ortografia em português, e o arquivo comparativo trata das correspondências e de seus limites.
A liderança de uma casa cabe à ialorixá ou mãe de santo, ou ao babalorixá ou pai de santo. Abaixo deles, há uma hierarquia estruturada de cargos: a iyakekerê ou mãe pequena como substituta, a iyá basé responsável pela cozinha ritual, as ekedis, mulheres que não entram em transe e cuidam dos orixás quando eles se manifestam, os ogãs, homens que não entram em transe e atuam como tocadores, protetores e sacrificadores, e o alabê responsável pelos toques dos atabaques.
O iniciado é o iaô, da mesma raiz iorubá do iyawó cubano. A iniciação envolve reclusão, raspagem e feitura da cabeça, assentamento do orixá, a saída pública e a cerimônia do nome na qual o orixá pronuncia seu nome, além de uma sequência gradual de obrigações de um, três e sete anos, após a qual o iniciado pode se tornar um ebomi e, eventualmente, fundar uma casa.
A cerimônia pública, o xirê, apresenta os orixás sucessivamente por meio de cantigas e ritmos de tambor em uma ordem prescrita, com os iniciados dançando e os orixás chegando em possessão. Os tambores são os atabaques, tocados com as mãos e com varetas, e os ritmos específicos constituem a linguagem ritual tanto quanto as próprias cantigas.
A possessão é o modo ordinário de contato e não é tratada como algo extraordinário. O orixá chega, é vestido e paramentado, dança, pode dar conselhos e parte.
Variantes regionais
Candomblé é baiano e carioca no nome, mas a família das religiões afro-brasileiras de orixá é nacional e recebe denominações regionais.
A Bahia é o centro histórico e o local das grandes casas de Ketu. O Rio de Janeiro abriga o Candomblé ao lado de uma presença muito mais ampla da Umbanda e de práticas por vezes rotuladas como Macumba, um termo vago e frequentemente pejorativo para variadas práticas afro-brasileiras, empregado de modo mais restrito para a Quimbanda e trabalhos centrados em exus no Rio [S10]. Pernambuco e os estados vizinhos do Nordeste chamam a tradição de Xangô em vez de Candomblé, com as nações Nagô e Eba, existindo lado a lado com a Jurema, tradição de raiz indígena com a qual se combina frequentemente [S11]. O Maranhão possui o Tambor de Mina, com casas Mina-Nagô e Jeje. O Rio Grande do Sul possui o Batuque, com a nação Oió-Ijexá [S12]. A nação Shambá em Alagoas e Pernambuco está quase extinta [S12].
São Paulo evidencia a expansão do século XX de modo mais nítido: de praticamente nenhum terreiro na década de 1960 para cerca de 2.500 no fim da década de 1980 e mais de 4.000 no final da década de 1990 [S2]. O crescimento do Candomblé no Sul ocorreu entre uma população sem ascendência baiana e frequentemente sem ascendência africana, o que constitui a condição comum da religião na atualidade.
Umbanda é uma formação distinta
A Umbanda não é Candomblé e não é uma tradição iorubá, embora utilize nomes de orixás.
Ela surgiu na região do Rio de Janeiro na década de 1920, mesclando práticas afro-brasileiras com o espiritismo kardecista e o catolicismo [S13]. A figura central é Zélio Fernandino de Moraes, que fundou o Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade em Niterói por volta de meados da década de 1920. Na narrativa de fundação, que ganhou destaque a partir da década de 1970, um espírito chamado Caboclo das Sete Encruzilhadas manifestou-se por meio de Moraes e defendeu a legitimidade de espíritos africanos e indígenas que os espíritas hegemônicos rejeitavam como espiritualmente pouco desenvolvidos [S13].
A estrutura da Umbanda é espírita. Ela incorpora de Kardec a reencarnação e a evolução cármica, organizando os espíritos por grau de evolução: orixás no topo, que nunca encarnam e são frequentemente identificados com santos católicos; caboclos, espíritos de indígenas brasileiros; pretos velhos, espíritos de africanos escravizados idosos; e exus e pombagiras, entidades menos evoluídas capazes de causar danos ou de buscar a redenção [S13]. Os médiuns recebem esses espíritos e eles dão consultas. A Umbanda branca eliminou o sacrifício animal e simplificou a iniciação, enquanto a Umbanda africanizada preserva práticas mais próximas do Candomblé [S13]. A Umbanda define-se em oposição à Quimbanda, que descreve como o trabalho com espíritos voltado para finalidades prejudiciais [S13].
A questão do embranquecimento é real e contestada. A liderança institucional inicial de Umbanda era substancialmente branca e de classe média, sua teologia baseava-se fortemente em uma estrutura espírita francesa e tornou a religião afro-brasileira respeitável, em parte, ao reorganizá-la dentro de um esquema evolucionista europeu no qual os espíritos africanos ocupavam um degrau inferior. Se isso constitui embranquecimento ou uma genuína síntese popular é algo debatido tanto por pesquisadores quanto por umbandistas, e a Umbanda africanizada é, em parte, uma resposta interna a isso.
Em seu auge, nas décadas de 1960 e 1970, relatava-se que Umbanda tinha de dez a vinte milhões de seguidores; os números do censo são muito mais baixos, com centenas de milhares identificando-se formalmente, enquanto a participação real chega aos milhões [S13]. Essa discrepância entre a identificação censitária e a participação é característica de todo o campo e é discutida no arquivo sobre religiões mundiais.
A situação atual
Candomblé alcançou respeitabilidade cultural no final do século XX e, simultaneamente, passou a sofrer um nível de ataques físicos que não enfrentava desde a era policial.
Os ataques a terreiros no Brasil aumentaram acentuadamente. Em 2023, houve 1.478 denúncias de intolerância religiosa no canal nacional de direitos humanos, um aumento de 80 por cento em relação a 2022, e os ataques à liberdade religiosa aumentaram mais 81 por cento entre 2023 e 2024, de acordo com dados oficiais [S14]. Os ataques especificamente contra adeptos de Umbanda e Candomblé triplicaram [S14]. Os incidentes documentados incluem vandalismo, apedrejamento, incêndio de terreiros, ameaças contra sacerdotes, perda de emprego e assassinatos [S14]. No Rio de Janeiro, chefes de facções armadas que professam conversão evangélica destruíram terreiros e expulsaram praticantes de áreas sob seu controle [S15].
O enquadramento é importante. Praticantes e pesquisadores brasileiros utilizam cada vez mais a expressão racismo religioso em vez de intolerância religiosa, sob o argumento de que os ataques visam a negritude e a origem africana, e não discordâncias doutrinárias, e que os terreiros são alvejados de maneiras que outras religiões minoritárias no Brasil não são [S16].
Em contrapartida, a posição jurídica e cultural fortaleceu-se. A Casa Branca é protegida por tombamento federal desde 1984, e outros terreiros seguiram o mesmo caminho. Em 2023, o presidente Lula sancionou uma lei que institui 21 de março como o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé [S2]. A população evangélica do Brasil continua a crescer, e a população das religiões afro-brasileiras é pequena em termos censitários e subnotificada, o que torna a aritmética política desfavorável, independentemente da posição legal.